Ontem não usava um cordão.
Vivia leve, bruto e cheio de arestas.
Aprontava feito macaco Tião.
O tempo passa e nós também.
Hoje eu uso um cordão.
Cordão lindo e de único peso.
Onde pesam duas almas e um coração.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Tecnocracia
Hoje as pessoas tem na cabeça
Que praticidade é uma polia
Quando na verdade não se sabe!
Rogo pragas contra a tecnologia!
Se ela de muito me valesse
Não destruiria a nossa poesia!
Que o silício se corroa
E que o aço se desmembre
De um em dois de novo!
Poesia é que coisa boa!
Surjam de novo os deuses antigos
Para que implodam essa tecnocracia
Que dos meus iguais só ganhou inimigos
E assim se perfaz dia após dia.
Que praticidade é uma polia
Quando na verdade não se sabe!
Rogo pragas contra a tecnologia!
Se ela de muito me valesse
Não destruiria a nossa poesia!
Que o silício se corroa
E que o aço se desmembre
De um em dois de novo!
Poesia é que coisa boa!
Surjam de novo os deuses antigos
Para que implodam essa tecnocracia
Que dos meus iguais só ganhou inimigos
E assim se perfaz dia após dia.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Soneto Bumerangue
De tempos em tempos.
Vem com as horas e os dias
Todos os nossos carinhos e afetos.
De que importa à nós o tempo?
Quando nos vale apenas o espaço,
De dois em um?
Seguem todos os santos cinco dias.
Penosos e arratados,
Em plenos verborrágios,
De muitos todos acomodados
Temos tempo de sobra pra tudo.
Pra nos sonhar e acarinhar.
Nós, em pleno largo espaço,
Vivemos nosso belo amor sanhudo.
Vem com as horas e os dias
Todos os nossos carinhos e afetos.
De que importa à nós o tempo?
Quando nos vale apenas o espaço,
De dois em um?
Seguem todos os santos cinco dias.
Penosos e arratados,
Em plenos verborrágios,
De muitos todos acomodados
Temos tempo de sobra pra tudo.
Pra nos sonhar e acarinhar.
Nós, em pleno largo espaço,
Vivemos nosso belo amor sanhudo.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Sábio é o que se contenta
"Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcerscível sempre.
Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De Átropos e tesoura.
Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto das horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.
Ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo."
Fernando Pessoa por Fernando Pessoa
Ps.: Imarcescível = duro
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcerscível sempre.
Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De Átropos e tesoura.
Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto das horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.
Ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo."
Fernando Pessoa por Fernando Pessoa
Ps.: Imarcescível = duro
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Experiência

Apesar dos erros, há de se acertar
O alvo, o peito, o brado.
Tudo há de se concretizar
Como o início do fim dum fado.
É possivel, sim,um homem estar errado
Por motivos que ele mesmo desconhece.
Pois se nesses motivos há uma mulher
É esta a única que ele merece.
A dor de estar enganado
É bem pior que a dor da partida.
Porque caso a isso esteja fadado
Nada mais lhe resta na vida.
Mas o caminho do fundo do poço
É um caminho longo, cumprido.
Do qual jamais se espera brotar
Tal amor nunca dantes sentido.
E esse amor queima de arder
Escoriando a quem tocá-lo.
Mas dos que estão no centro seu
Dele, e só dele, hão de morrer.
Porém, por alguma força da natureza
Isso muito nos parece inverso.
De ambos corações, saudosos e calados,
Falta a corajosa e retida destreza.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
"Encontro com a Usina"
...
"Por esta grande usina
olhando com cuidado eu vou,
que estar foi a usina
que toda esta Mata dominou.
Numa usina se aprende
como a carne mastiga o osso,
s aprende como as mãos
amassam a pedra, o caroço;
numa usina se assiste
à vitória, de dor maior,
do brando sobre o duro,
do grão amassando a mó;
numa usina se assiste
à vitória maior e pior,
que é a de pedra dura
furada pelo suor."
...
"Por esta grande usina
olhando com cuidado eu vou,
que estar foi a usina
que toda esta Mata dominou.
Numa usina se aprende
como a carne mastiga o osso,
s aprende como as mãos
amassam a pedra, o caroço;
numa usina se assiste
à vitória, de dor maior,
do brando sobre o duro,
do grão amassando a mó;
numa usina se assiste
à vitória maior e pior,
que é a de pedra dura
furada pelo suor."
...
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